Examinar os próprios pensamentos pode ampliar a compreensão de uma situação. Neste texto, a palavra criticidade é usada em sentido cotidiano para descrever uma postura de curiosidade e análise, não como diagnóstico ou construto clínico padronizado.
O que é criticidade
Na TCC, uma habilidade relacionada é observar pensamentos com algum distanciamento, em vez de tratá-los automaticamente como fatos. É a diferença entre dizer “eu sou um fracasso” e reconhecer “estou tendo o pensamento de que sou um fracasso”.
Parece sutil, mas pode abrir uma diferença importante no modo como a pessoa responde ao que pensa.
Por que isso importa
Muitos pensamentos cotidianos surgem de modo automático, influenciados por experiências passadas, padrões aprendidos, estados emocionais e contexto. Sem uma pausa crítica, eles podem ser tratados como comandos ou fatos.
Quando aparece o pensamento “ninguém me suporta”, tratá-lo como certeza pode favorecer afastamento ou evitação, dependendo do contexto.
Criticidade introduz uma pausa: “esse pensamento está aparecendo agora. Ele se sustenta? Em que evidências?”.
Como desenvolver na prática
Não é receita pronta, mas alguns movimentos consistentes ajudam:
1. Nomear o pensamento. Em vez de “sou inútil”, reescrever como “tenho o pensamento de que sou inútil”. A diferença gramatical cria um espaço.
2. Buscar evidências. Que fatos sustentam esse pensamento? Que fatos o contradizem? Existem informações que ainda não foram consideradas?
3. Considerar leituras alternativas. Se um amigo trouxesse essa mesma situação para você, o que diria? Costumamos ser mais generosos com os outros do que conosco.
4. Diferenciar pensamento de emoção. “Estou ansioso” é uma emoção. “Vou falhar” é um pensamento. Tratá-los como a mesma coisa é o que reforça o ciclo.
5. Aceitar a coexistência. Pensamento e realidade não precisam coincidir. Você pode pensar “ninguém liga” e, ao mesmo tempo, ter pessoas que ligam.
Criticidade não é negar o que se sente
Importante não confundir. Criticidade não pede que você “deixe de sentir”, “pense positivo” ou “ignore o que incomoda”. Pelo contrário: ela pede que você se aproxime do que sente com mais clareza, em vez de fugir.
Sentir tristeza, raiva, medo, frustração faz parte da vida. O que muda é como você responde a esses estados, automaticamente ou com algum espaço de escolha.
Por que isso é trabalho clínico, não autoajuda
Ler e praticar perguntas pode ser útil. Em psicoterapia, o profissional ajuda a observar padrões, testar hipóteses e relacionar pensamentos às emoções, aos comportamentos e ao contexto. Isso não significa que apenas uma pessoa externa seja capaz de perceber o que acontece.
Com a prática, perguntas como “esse pensamento se sustenta?” ou “há outra leitura possível?” podem integrar o repertório da pessoa.
Em síntese
Questionar pensamentos automáticos é uma das estratégias possíveis na TCC. O objetivo não é eliminar pensamentos nem alcançar controle total, mas ampliar a flexibilidade para responder a eles.
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