Um dos motivos mais comuns para casais procurarem atendimento é a sensação de que o desejo está em descompasso. Um quer mais, o outro quer menos. O que era espontâneo virou negociação. E começou a aparecer culpa, frustração, distanciamento.
A boa notícia: diferenças de desejo são muito mais comuns do que se acredita. E têm caminhos clínicos bem mapeados.
A primeira coisa importante
Casais que têm a mesma intensidade de desejo o tempo todo, da mesma forma, são exceção, não regra. A literatura clínica em sexologia trabalha com a premissa de que diferenças de desejo são esperadas.
O que merece atenção não é a diferença em si, é como o casal lida com ela.
Desejo espontâneo vs. desejo responsivo
Uma distinção importante, popularizada nos últimos anos:
Desejo espontâneo é aquele que aparece “do nada”, você está fazendo qualquer coisa, e o desejo surge. É o desejo mais retratado em filmes e cultura pop.
Desejo responsivo é aquele que aparece depois que o estímulo começa. A pessoa não sente vontade espontaneamente, mas, uma vez que o contato íntimo começa, o desejo se ativa.
Pesquisas indicam que desejo responsivo é muito comum, especialmente, embora não exclusivamente, em mulheres. Não é “frieza”, não é “falta de interesse pelo parceiro”. É uma forma diferente de funcionar sexualmente.
Casais em que um tem desejo espontâneo e o outro responsivo costumam viver um descompasso clássico: um se sente “rejeitado” porque o outro nunca toma a iniciativa, sem perceber que a outra pessoa precisa do início para sentir o desejo.
Fatores que afetam o desejo
Desejo sexual é biopsicossocial. Pode ser afetado por:
Físicos:
- Alterações hormonais (gravidez, pós-parto, menopausa, andropausa, condições endócrinas)
- Medicamentos (antidepressivos, anticoncepcionais, anti-hipertensivos, entre outros)
- Condições crônicas de saúde
- Cansaço, sono ruim, exercício insuficiente ou excessivo
Psicológicos:
- Ansiedade, depressão
- Estresse crônico
- Trauma sexual passado
- Dinâmica do relacionamento
- Imagem corporal e autoestima
- Preocupações com finanças, trabalho, filhos
Relacionais:
- Conflitos não resolvidos
- Falta de conexão emocional
- Comunicação ruim sobre sexualidade
- Rotina sem espaço para intimidade
- Filhos pequenos
Culturais:
- Mensagens recebidas sobre sexo na infância e adolescência
- Religiosidade e culpa
- Tabus ainda ativos
Quando vale procurar atendimento
- Quando a diferença de desejo virou fonte recorrente de conflito.
- Quando um dos dois está sentindo ressentimento ou afastamento.
- Quando há mudança brusca no desejo (caiu de repente, sem causa clara).
- Quando há dor durante o sexo ou outros sintomas físicos.
- Quando o tema é evitado por desconforto, e fica em silêncio.
- Quando um(a) está infeliz com a frequência ou qualidade da intimidade.
O que o atendimento clínico oferece
- Mapeamento dos fatores envolvidos, sempre é multifatorial.
- Educação sexual baseada em evidências. Muito sofrimento se desfaz quando o casal entende o que está acontecendo.
- Comunicação sexual. Aprender a falar sobre o que se quer, sem culpa nem cobrança.
- Trabalho de ansiedade de desempenho quando aparece.
- Encaminhamento médico quando há suspeita de causa orgânica.
- Trabalho de vínculo emocional, que é base do desejo no longo prazo.
Mensagem para os casais
Não há “frequência ideal” de sexo. Não há “tipo de desejo certo”. O que importa é se vocês estão bem com o que vocês têm, e, se não estão, há caminho clínico para ressignificar.
Procurar terapia sexual ou terapia de casal não significa que vocês falharam. Significa que estão dando o cuidado que essa parte da vida merece.
Importante
Este texto é informativo e não diagnostica. Em situações específicas (dor sexual, mudanças bruscas, suspeita de causa orgânica), avaliação médica é essencial, em paralelo ao atendimento psicológico.
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